2015-12-13 13:47:53

Laranja Mecânica

Laranja Mecânica

Seleção Holandesa de 1974 - Vice-campeã do mundo no Mundial da Alemanha de 1974. Apresentou o conceito de futebol total. Todos os futebolistas percebiam a sua responsabilidade de forma global, atacando e defendendo em todos os setores, distribuindo-se no

Com Marinus Michels no comando, a seleção holandesa que disputou o Mundial de 1974 entrou na história por diversos motivos. Significou um ponto de viragem na evolução do jogo, ficou na memória colectiva sem ganhar o título, significou a explosão de um dos génios desta modalidade, Johan Cruyff e foi talvez a equipa mais completa da história. Era sábia tacticamente, muito bem dotada tecnicamente e fisicamente imponente. Rinus Michels foi o criador desta máquina futebolística e adotou o nome de Laranja Mecânica do filme Stanley Kubrick, que causou um grade impacto naquela altura. O treinador do Barça, que tinha acabado de tornar campeã a equipa, com a liderança de Cruyff, tomou posse do cargo de selecionador três semanas antes do campeonato. Não teve muito tempo para transmitir as suas ideias. De resto, a Holanda, sob as ordens do checoslovaco Frantisek Fadrhonc, tinha-se qualificado para o Mundial com alguma agoni, graças a um golo anulado à Bélgica no último minuto do jogo decisivo para a qualificação. O ex-selecionador ficou na equipa técnica como adjunto.

Apesar do pouco tempo que dispunha, Michels não se deixou impressionar e propôs o futebol pressing que tinha inventado como sistema para ser interpretado por um grupo de jogadores com muito talento. Pouco depois, um jornalista alteraria o nome para futebol total, que consistia num conceito tático muito dinâmico, que valorizava as combinações com a bola, a posse de bola como valor fundamental, mesmo que fosse longa e o constante movimento dos jogadores para se associarem na manobra ofensiva. Em contraposição, quando a equipa perdia a bola, todos tinha obrigação de trabalhar com intensidade para recuperá-la. O plano exigia polivalência dos jogadores, sendo perigoso no ataque e agressivos na defesa. Mas, principamente, tinham de ser inteligentes para alterarem as posições e distribuírem-se nos espaços. Todos podiam aparecer em todos os setores e as compensações tinham de ser permanentes. Por isso é tão difícil desenhar tacticamente este equipa.

O GR Jongbloed era praticamente melhor com os pés do que com as mãos. A sua função era prevenir mais do que atuar, dedicar mais atenção à proteção das costas da linha defensiva do que a parar remates, pois recebia poucos. Os três defesas eram Suurbier, Rijsbergen e Krol. Realizavammarcações ao homem, mas na manobra ofensiva tinham liberdade para sair e jogar, distribuir a bola e até realizar conduções longas. Suurbier era mais rápido, Rijsbergen mais contundente e Krol mais delicado com a posse de bola. Haan era o jogador livre, que jogava à sua frente e que tinha de auxiliá-los, tendo em conta a sua velocidade e a sua leitura tática. Tinha também a responsabilidade de dar aquele passo à frente para procurar um médio, deixar o adversário fora de jogo ou recuar para defender. Jansen assumia o papel de médio corretor que tinha de equilibrar a equipa com muita capacidade para encher o campo, proteger o talento dos jogadores que tinha pela frente e eliminar os problemas defensivos na retaguarda, se algum colega precisasse. Foi um actor chave para permitir o harmónico baile de posições. Neeskens explodiu o seu talento para chegar à frente desde a segunda linha, lendo bem os espaços que tinha de invadir, sem perder intensidade defensiva. Alé, disso, simplificava as decisões com bola. Ao lado dele, Van Hanegem colocou ao serviço do coletivo uma qualidade privilegiada que o teria tornado ponto de referância em qualquer outra equipa. Dominava a relação espaço-tempo, pensava muito rápido, era delicado com a bola no passe e contundente no remate. Soube misturar-se com Neeskens e com o principal elemento de desequilíbrio, Cruyff. Este tinha liberdade absoluta para encontrar zonas mais adequadas com o objetivo de gerar perigo com progressões cheias de mudanças de ritmo e de velocidade. Os seus moviementos como falso nov arrastavam defesas e abriam espaços livres paa as entradas de colegas desde a segunda linha. A sua habilidade, a sua improvisação e a sua verticalidade tornaram-no num jogador único, com uma personalidade muito forte. A sua zona de influência era imensa e com os laterais adversários fixos pelos extremos holandeses, ele conseguia encarar os centrais com muito espaço.

 A flexibilidade tática, a mudança de posições, a ocupação e desocupação de espaços, e a improvisação mantinham o jogo colectivo ao mais alto nível. Rep na direita e Resenbrink na esquerda, que era um herdeiro de Keizer, eram os extremos que davam velocidade, profundidade e movimentação à última fase do jogo. Mais uma vez, uma grande equipa vivia sem rematador puro, prejudicando a efetividade na finalização das jogadas.

Rinus Michels transferiu a maior parte do mérito para os futebolistas: "Tratei de transmitir-lhes um funcionamento baseado no conceito de ocupar todo o campo; recuperar a bola o mais perto possivel da baliza adversária e produzir posteriormente o ataque com os jogadores necessários, independentemente do número da camisola, realizando as compensações correspondentes. O melhor de tudo é que os jogadores perceberam isto, acrditaram e conseguiram os resultados."

Texto retirado do livro "Formula Barça"

Partilhar:

Comentários

Filtrar Imperdível