2017-06-14 09:35:34

André Silva: de Ivo Rodrigues a CR7

André Silva cresceu com Ivo Rodrigues e adquiriu rotinas a partir desse contexto

André Silva tornou-se, em pouco tempo, no jogador que melhor complementou Cristiano Ronaldo na equipa portuguesa. De tal forma que, inclusivamente, a sua influência se tornou mais visível na selecção do que no F.C.Porto. Mais do que fazer considerações ao nível do sistema de jogo dos dragões, importa compreender o passado de André Silva. O seu contexto.

André Silva deve ter feito mais jogos com Ivo Rodrigues do que com qualquer outro parceiro de ataque. Centenas de jogos, estou certo. Nas camadas jovens do F.C.Porto jogavam quase de olhos fechados. Ivo, que é rápido, sai bem em diagonal e tem remate fácil, criou rotinas invisíveis em André. É lógico que Ivo Rodrigues não é Cristiano Ronaldo mas a existência de características e de movimentações semelhantes toldaram o próprio André Silva, naquilo que é como jogador e naquilo que será no futuro. André Silva não é um jogador ainda totalmente “congelado” na altura da finalização mas compensa com uma grande perspicácia em termos de pequenas movimentações dentro da área. Sobretudo quando está em dupla. Sobretudo quando esse parceiro tem as características às quais está acostumado. Aí André Silva multiplica-se. Exponencia-se. É mesmo de top.

Aliás, as selecções jovens beneficiaram, durante vários anos, da dupla André Silva e Ivo Rodrigues. A eles juntou-se Gelson Martins. O extremo sportinguista e os dois portistas foram destaques no mundial sub-20 de 2015, já para não falar do quarto elemento da frente de ataque, que era Gonçalo Guedes. Frente a Letónia, apuramento para o mundial, a titularidade de Gelson pretendeu recriar esse trio, constituído por outros jogadores colocados de forma estratégica como se fossem diferentes actores de uma mesma peça. E a Letónia acabou por se tornar presa fácil. A partir do momento em que Portugal fez subir os seus laterais e colocou William Carvalho a começar a primeira zona de construção em áreas adiantadas, a Letónia foi cedendo e recuando. André Silva, com o seu ajuste de se deixar na dianteira e não recuar tanto (a Letónia é que o tem de temer e não tanto ser ele a temer a subida dos defesas da Letónia) foi fundamental na concretização de mais um passo rumo ao objectivo. É lógico que o tal erro de abordagem frente à Suiça está a ser pago com juros, mas não é um erro que torna um homem,ou uma equipa, menos válido. Errar é humano, errar muitas vezes é que é crítico.

Por falar em saídas, a de Ederson era absolutamente previsível. Para mim, é o melhor guarda-redes do mundo da actualidade. Consegue praticamente não ter pontos fracos, para além de uma capacidade inata de aparecer nos grandes jogos. Guardiola, que vê na ofensividade do guarda-redes um factor determinante do seu jogo, não teve dúvidas em encaixar o brasileiro no seu Manchester City. Que também vai contar com Bernardo Silva. É claro que as comparações são escusadas e até altamente perigosas, mas não deixa de ser verdade que Bernardo Silva é o jogador mais parecido com Messi que Guardiola poderia encontrar. Ou seja, a capacidade milionária do City pode funcionar como construção da réplica do Barcelona que encantou a Europa, desta vez em Inglaterra.

Do Benfica também saiu Lindelof para o Manchester United. Para além das suas capacidades de marcação e de bloqueio do adversário, Lindelof foi exímio noutro aspecto específico do jogo: o início da construção a partir da linha defensiva, fazendo com que os médios continuassem a mesma construção em zonas adiantadas. Algo de cómodo para as equipas grandes. Lindelof é lateral de raiz, e até foi decisivo na final do europeu de sub-21 que a Suécia ganhou a Portugal. Daí alguma capacidade técnica e de velocidade em termos de decisão.

Quem também nem sempre cresceu como central foi Rúben Semedo. Quer nos escalões de formação do Sporting, quer no Vitória de Setúbal, Semedo foi crescendo mais à frente, ganhando rotinas em termos de médio defensivo. Tal como Lindelof, foi muitas vezes o central responsável por sair a jogar, criando desequilíbrios que se revelaram decisivos em determinados encontros.

Para completar o lote, fala-se também da possível saída de Rúben Neves. Que falta fez uma maior utilização nesta época! Aliás, quando Rúben jogou, o Porto pareceu crescer. Isto porque, não tendo centrais talhados para a construção e Danilo apresentando outras características, o futebol de Rúben significou o elemento que faltava. Se a Rúben pode faltar um pouco em termos de agressividade na transição defensiva, certo é que tem características raras de se ver num médio defensivo: passes longos, por exemplo. Com precisão considerável. Corona que o diga, ele que lucrou muitas vezes com o acerto do seu colega. Seja onde for, Rúben Neves vai provar que é um jogador acima da média. E com capacidade para se tornar num dos melhores do mundo na sua posição. 

Inscreva-se na nossa Newsletter

Inscreva-se na nossa Newsletter para receber as notícias actualizadas na sua caixa de correio.
Partilhar:

Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

- Colaborador Desportivo Permanente na Imprensa Russa - Championat, Sport Express, Eurosport - Comentador Desportivo Semanal(6ª feira) na Regiões TV; - Comentador Desportivo Semanal nos jornais Gaia Semanário/Notícias de Esposende;     Colaborações passadas: Colunista semanal jornal "O Jogo"; jornal "Academia de Talentos"; jornal...

  • LinkedIn
  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos