2016-12-21 12:07:34

Quem de futebol só percebe de futebol nada percebe

O futebol é um jogo estratégico e pensado ao pormenor. A menos que se perca o controlo emocional do contexto

Sou daqueles que acreditam que os factores externos pouco influenciam o jogo. Isto porque o jogo de futebol envolve estudo, envolve ciência, envolve planos de jogo. Envolve estratégia, exploração dos pontos fortes e camuflagem dos pontos fracos. Agora, naturalmente que isto não se faz numa divisão de 100 para 0. Talvez uma divisão de 90 para 10 seja a ideal. Mas o problema do Sporting, ano após ano, é que o 10 vale mais que o 90.

Os leões até que começaram bem a temporada e, malgrado a extraordinária campanha da selecção portuguesa no euro e da maciça presença de jogadores do Sporting, mantiveram-se discretos. Geriram bem o turbilhão, as emoções, a possível saída de Adrién e a cobiça europeia a Rui Patrício. Estava tudo bem enquadrado para o 10 ser 10 e para o 90 ser 90, e tal evidenciava-se na qualidade de jogo da equipa, o melhor colectivo em Portugal.

Mas eis que de um momento para o outro o Sporting entrou no processo de sempre. No processo de lavandaria. Foram os eventuais cigarros electrónicos ou as eventuais cuspidelas. Foram as cartolinas. Foi o treinador a falar espanhol e a ser alvo de gargalhada generalizada. E o problema não é Jorge Jesus tentar falar espanhol (obviamente que tal não é alvo de censura), mas é antes o facto de se pôr a jeito da crítica num clube que tem de ser contido. Tem de ser blindado, até porque caem das árvores comentadores que falam do Sporting. Debitam Sporting. E o Sporting continua a tentar buscar a razão. A tentar ter a razão toda. Quando, se calhar, o truque passa por ceder a razão aos outros e a tentar concentrar-se apenas no relvado. Porque o homem cheio de razão morreu sozinho.

Sobre Jorge Jesus, apenas digo que, se eu fosse Presidente, ele não seria o meu treinador. Como disse um dia o filósofo e jurista brasileiro Pontes de Miranda, “quem só de direito sabe de direito nada sabe”.  Para mim, bastava-me ver o Leverkusen-Sporting da época passada para não contratar Jorge Jesus. Com a equipa toda a “comer a relva” em busca do apuramento, Jesus optou por deixar Slimani e Ruiz no banco até perto do final do jogo. Por uma lógica puramente racional. Racional ao extremo. E é, também por isso, que eu considero que a insistência de Pinto da Costa em Jorge Jesus, temporada após temporada, foi um dos maiores erros da sua gestão. Que parece ter sido saneado. Já não se fala de Jesus no Dragão.

E o Sporting perdeu contra um Braga amplamente organizado. Uma equipa minhota com um grande pendor ofensivo, assente em dois avançados móveis e numa dupla de meio-campo (Xeka e Vukcevic) que se complementa e resguarda a linha defensiva. Nem tudo estava mal no Braga. E é preciso ser frio.  O Braga está a 6 pontos do líder e já jogou, fora, frente a Porto, Benfica, Sporting, Marítimo e Vitória de Guimarães. Por muito que o equilíbrio da equipa deixasse a desejar, sobretudo ao nível das transições defensivas, certo é que José Peseiro deixa o Braga no pódio após ter atravessado o mais difícil dos calendários. Há que ir contra estigmas.

Estigmas que, por exemplo, estavam a condicionar Depoitre. Eu também me pergunto se o valor pago pelo belga foi o mais adequado ou não. Por 6 milhões de euros podiam-se ter tomado outras opções. Agora, daí a darmos Depoitre como inapto vai uma grande distância. Trata-se de um cabeceador, de um jogador que joga bem na componente física, de um jogador que dá boas respostas ao nível das bolas paradas e que ganha duelos aéreos com relativa facilidade. E a sua inclusão no jogo frente ao Chaves permitiu ao Porto exteriorizar o seu jogo e dar a componente pragmática que faltava para vencer os flavienses. Objectividade.

E bem-vindo Jonas! Frente ao Estoril, num jogo em que o Benfica até que nem jogou por aí além, o brasileiro regressou em cheio. Meia dúzia de acções de grande leitura de espaço, deixando “respirar os colegas”. Há, quanto a mim, dois jogadores na Liga Portuguesa que pensam o jogo um segundo antes que todos os outros: um deles é Óliver, e outro é Jonas. E, agora, o desafio encarnado é estabilizar na equipa aquele que foi o jogador mais determinante das últimas temporadas. O inevitável Jonas!

PS – Desejo a todos os leitores um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!

 

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Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

- Colaborador Desportivo Permanente na Imprensa Russa - Championat, Sport Express, Eurosport - Comentador Desportivo Semanal(6ª feira) na Regiões TV; - Comentador Desportivo Semanal nos jornais Gaia Semanário/Notícias de Esposende;     Colaborações passadas: Colunista semanal jornal "O Jogo"; jornal "Academia de Talentos"; jornal...

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