2016-06-23 08:42:40

Portugal: uma questão de contexto

Equipa portuguesa desequilibra a partir do espaço que tem. Grupo difícil em face das características de Portugal

Quando Cristiano Ronaldo é colocado em zonas de finalização é, de longe, o melhor do

mundo. Não há nenhum jogador que tenha a desenvoltura de finalizar com ambos os pés

e de cabeça com a mesma eficiência. Porém, quando colocado em zonas de construção,

já não é o melhor do mundo. Perde rendimento. Natural.

 

É claro que a análise não é assim tão linear. Há mais parâmetros de reflexão num

jogador que mudou radicalmente a sua forma de jogar desde os seus primeiros tempos.

Mas, neste europeu, essas duas características sobressaíram. Neste último jogo frente à

Hungria, apesar de todos os problemas, o jogo partido fez com que Cristiano Ronaldo

tivesse espaços e amplas zonas para finalizar. Aí, quem tem CR7 resolve muitos

problemas. CR7 tem, contudo, sido um problema devido à sua compulsividade em bater

todos os livres. Todos, de todo o lado! Um exagero, sobretudo quando temos boas

opções alternativas, e ainda tenho na cabeça aquele livre mesmo “ao jeitinho” de

Raphael Guerreiro frente à Áustria.

 

Por falar em problemas, eu diria que Portugal está num assim-assim. Tem muitos

problemas em termos de consistência defensiva mas os mesmos até podem ser

corrigidos facilmente, ou o contexto até nos pode ser favorável. Em primeiro lugar, a tal

posição de médio-defensivo que está instável. Ainda não está devida e

indiscutivelmente cimentada.

 

Danilo é muito mais sólido em termos de transição defensiva (contra a Islândia esteve,

contudo, sofrível) mas William Carvalho permite a construção do jogo mais à frente.

Neste último jogo, por exemplo, enfrentamos a Hungria que é uma das melhores

equipas deste europeu a jogar em transição rápida. Como William esteve em grande

plano frente à Áustria, não fazia sentido tirá-lo da equipa. Sofremos com isso e com

uma defesa repleta de falhas individuais e de um certo laxismo a não bloquear os

remates de longe do adversário.

 

Depois, as características do nosso meio-campo não são condizentes com um grupo

composto por Áustria, Hungria e Islândia. Isto porque são equipas que defendem em

zonas recuadas e que pedem desequilíbrios individuais na zona central onde Portugal

tem, ao contrário de outros anos, menos criatividade.É contrariável pelo trabalho e não

batida pelo improviso. Ou seja, e falando agora do contexto, Portugal precisa de espaço.

E esse espaço surge mais naturalmente mediante um cenário de equilíbrio de forças. Em

que o adversário tenha de correr riscos. Queira e precise de ganhar.

 

A selecção tem outros problemas. Não tendo um jogador rematador, uma espécie de

Talisca, a selecção tem de encontrar outros caminhos para desfazer os blocos compactos

do adversário. Pego nesta premissa para criticar o seleccionador pela decisão que tomou

frente à Áustria. Na segunda parte, a opção de recuar a equipa para fazer subir a equipa

da Áustria foi inteligente. Mas ali faltava Rafa. Rafa é o jogador com mais apetência

para conduzir a bola em velocidade o que, naquele cenário específico, seria fundamental

para se fragilizar a Áustria às custas de rápidas transições ofensivas.

 

Fernando Santos, que é um treinador prudente, esteve quanto a mim bem frente à

Hungria. Ciente de que um jogo partido era um risco frente a uma equipa com boa

dinâmica ofensiva colocou Danilo em campo e, com isso, pôs uma pedra de gelo na

partida. E a Croácia não é o pior adversário do mundo.

 

Por aquilo que disse há pouco. A selecção portuguesa baseia muito o seu jogo no espaço

que tem e no espaço que lhe é permitido. Frente à Croácia, a possibilidade de

crescimento de zonas de criação e de finalização é ampla. E, com isso, vai crescer

Portugal, estou certo. Tal como aconteceu frente à Bélgica e não aconteceu frente à

Bulgária. Ou seja, Portugal luta contra um conjunto de pequenos problemas criados pela

sua própria estrutura, e contra um problema maior chamado contexto. Como estou

confiante de que o primeiro se vai resolver com trabalho e o segundo naturalmente, há

motivos para acreditar. Há motivos para acreditar em Portugal! Isto só agora começou.

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Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

- Colaborador Desportivo Permanente na Imprensa Russa - Championat, Sport Express, Eurosport - Comentador Desportivo Semanal(6ª feira) na Regiões TV; - Comentador Desportivo Semanal nos jornais Gaia Semanário/Notícias de Esposende;     Colaborações passadas: Colunista semanal jornal "O Jogo"; jornal "Academia de Talentos"; jornal...

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